À espera

07 Junho 2017

Estar à espera é daquelas coisas na vida que acho que ninguém gosta. À espera do comboio, de um amigo que se atrasa, do resultado do exame, que pare de chover, que o cheque finalmente chegue. Estar à espera cansa, enerva-nos, tenho a sensação que por cada minuto que passamos à espera, mesmo por coisas triviais, perdemos dois minutos de vida. Há quem espere por algo muito mais importante e que acaba por perder muito mais que isso...

Na maioria dos casos, é possível curar a Hepatite C. Esta frase repete-se no meu dia a dia na sala onde faço rastreios. Esta frase, preciosa, carrega algo positivo e tranquilizante para quem, após 15 minutos de espera, recebe um resultado reactivo para VHC (vírus da hepatite C). Mas, em tantos casos, a esperança transmitida por essa frase vai-se desvanecendo. A cura para muitos, transforma-se numa espera sem fim. As barreiras à eliminação desta doença são ainda muitas e lidar com elas no dia a dia é frustrante para todos os que trabalham nesta área. Para quem necessita do tão falado tratamento é... é... é algo que quem nunca passou por isso só pode mesmo imaginar. Falamos duma doença que afecta cerca de 160 milhões de pessoas em todo mundo, ultrapassando de longe o número de pessoas com VIH. Ao contrário do VIH, a Hepatite C pode ter cura e o tratamento está actualmente acessível em Portugal. Mas então o que se passa? Façamos uso da empatia...

- Sou jovem, já ouvi falar de hepatites, mas não sei o que é Hepatite C, como se transmite ou onde fazer o rastreio. Será que corri riscos quando fiz uma tatuagem com os meus amigos? Os meus amigos também não sabem. Acho que há muita falta de informação sobre esta doença.

- Sou imigrante, tive um teste reactivo para VHC num centro de rastreio. No Centro de Saúde recusaram a minha inscrição esporádica com despacho de cuidados urgentes e vitais e por isso não tenho acesso à consulta de especialidade nem ao tratamento.

- Sou técnico de saúde, no meu curso pouco me ensinaram sobre Hepatite C, tem havido muitas mudanças nesta área, mas não tenho tido acesso a formação. Até há pouco tempo continuava a achar que uma pessoa infectada com VHC, mas com valores razoáveis nas análises de sangue, não precisava ser referenciada para a especialidade, nem de tratamento. Tenho colegas que mantêm essa prática.

- Sou portadora de VHC e estou em situação de insuficiência económica, mas não tenho direito a isenção. Não tenho dinheiro para pagar as taxas moderadoras associadas à consulta, às análises e a outros exames complementares de diagnóstico por isso não tenho acesso ao tratamento.

- Sou utilizador de drogas. Sei que a partilha de material de consumo me coloca em risco de contrair VHC. Gostava de ter mais informação sobre prevenção e tratamento. Conheço algumas pessoas com Hepatite C, alguns dizem que ficaram doentes por usar limão nos consumos, alguns são seguidos na consulta de especialidade, mas nunca lhes foi dado o tratamento, pois os médicos agarram-se à hipotese de numa possível re-infecção.

- Sou portador de VHC e sou seguido no Hospital, mas estou há 10 meses à espera de uma elastografia hepática. Sinto-me doente, mas sem esse exame não tenho acesso ao tratamento.

- Sou técnico de redução de danos. Lido diariamente com pessoas utilizadoras de drogas e grande parte delas estão infectadas com VHC. Faço educação para a redução de danos associados ao consumo, mas não posso abrir uma sala de consumo assistido para os utentes, apesar dessa estratégia noutros países provar a eficácia na redução de VIH e hepatites virais.

- Sou presidiária. Nao tenho acesso a um programa de redução de danos dentro da prisão. Já tive comportamentos de risco aqui e sinceramente não sei se estou infectada. Não tenho acesso ao rastreio. Há aqui pessoas que estão infectadas, mas não têm acesso a tratamento.

Afinal há ainda muito a fazer... Sejamos concretos, é preciso pôr os pontos nos i´s neste tão importante objectivo da eliminação da hepatite viral como ameaça à saúde pública até 2030. Estamos em 2017. É importante reflectir e debater, mas como diz alguém muito especial, “isso foi ontem”. Por todos os que já lutaram contra esta doença, por todos os que vivem com ela e continuam à espera, por aqueles em que a espera foi tempo demais, por todas as batalhas já ganhas neste país na luta pelo acesso à saúde e ao tratamento da Hepatite C, é tempo de continuar a mudança não pensando que o que foi conseguido é suficiente. Continuarei a trabalhar... e a torcer para que esta espera por um plano nacional estratégico para Hepatite C valha a pena, e que este venha eliminar de uma vez por todas estas barreiras, dando uma resposta a todas as pessoas que, estando em que situação estiverem, vivem com VHC em Portugal e por isso não lhes deveria ser negado o acesso a tratamento.

 

Joana Sanches, enfermeira do projeto IN-Mouraria