Hepatites entre pessoas que usam drogas

09 Novembro 2016

Em Oslo discutiram-se as hepatites entre pessoas que usam drogas. Aprendi muito e quero partilhar com outros como eu.

Em setembro recebi uma bolsa para participar na conferência INHSU - 5º Simpósio Internacional sobre hepatites em utilizadores de drogas - com a expectativa de aprender e ter uma visão mais abrangente da situação a nível internacional. Ao chegar tive uma agradável surpresa – não era uma conferência só para profissionais de saúde, estavam também envolvidas muitas associações de utilizadores de drogas, assim como profissionais da área da redução de danos. 

Não se pode falar dos tratamentos para a hepatite C sem envolver as pessoas que usam drogas. Em muitos contextos, 80% das pessoas que usam ou usaram drogas injetadas estão infetadas. Negar-lhes ou adiar o tratamento é não só discriminatório, mas também uma oportunidade perdida para evitar novas infeções. Por isso o acesso ao tratamento para pessoas que usam drogas foi uma questão permanente no simpósio. Recomendou-se fortemente acabar com todas as restrições no acesso aos novos tratamentos para a hepatite C, em particular os obstáculos colocados às pessoas que estão com consumos ativos de drogas ou álcool ou em tratamento de substituição opiácea. Providenciar tratamento para as pessoas que injetam drogas, integrado em programas de redução de danos e em articulação com a consulta de infeciologia, pode ser a chave para o sucesso.

Aprendi também a reconhecer muitos dos sintomas da antes chamada “doença assintomática”. Durante mais de 20 anos vivi induzida numa “tranquilidade” que os médicos me iam dando por não ter fibrose avançada, tanto que já não fazia um fibroscan há 2 anos. Nunca dei muito valor aos sintomas que ia tendo e não os associava à doença. O cansaço, a confusão mental, os bloqueios do raciocínio, as dores nas articulações, a sensação de que o cérebro estava a fazer pressão dentro da caixa craniana. Não percebia que era a minha hepatite a evoluir, apesar de saber que tinha carga viral ativa e ter feito há 10 anos, sem sucesso, o tratamento com interferão + ribavirina.

Também aprendi sobre reinfeção e é algo muito importante que deve ser falado entre os utilizadores, pois não basta cada um ter a sua seringa nova. Há mais cuidados que os injetores de drogas devem ter para não se reinfectarem após o tratamento. Fiquei com a noção que a reinfeção é muito fácil e que não se restringe à partilha de material de injeção.

Neste sentido, as salas de consumo são necessárias porque podem ser o contexto ideal para informar os utilizadores de drogas injetadas sobre o vírus da hepatite C e a possível reinfeção. Igualmente importante é educar outros pares (utilizadores) para que passem a palavra e assim comece a haver consciência de que o vírus da hepatite C é muito resistente e que um toalhete de álcool não chega para prevenir/evitar a contaminação da parafernália.

A ter em conta:

Priorizar as pessoas que usam drogas

Na Europa, as pessoas que injetam ou injetaram drogas são o grupo mais afetado pela hepatite C (cerca de 80%). Há um número significativo ainda por diagnosticar e persistem as barreiras à realização do teste. 

Atenção à transmissão e à reinfeção

São observadas situações de risco entre novos e "tradicionais" grupos de consumidores. Continua a existir partilha de materiais de injeção entre consumidores “tradicionais” de cocaína e heroína. E começam a surgir infeções em novos utilizadores de estimulantes injetáveis, sobretudo em homens que têm sexo com homens. 

Novas oportunidades

Os antivirais de ação direta (AAD) permitem tratamento com sucesso – se o doente estiver diagnosticado. A ligação entre o teste e encaminhamento para tratamento é um desafio, devido a barreiras individuais e dos próprios sistemas de saúde. Intercâmbio de boas práticas é necessário.

 

Magda Ferreira

Este texto é da exclusiva responsabilidade da autora.