Jogos que as pessoas jogam

05 Setembro 2016

English version bellow.

Jogos que as pessoas jogam, ou:

Como aprendi a parar de questionar e a amar a Sueca

No começo da minha temporada aqui no IN-Mouraria, propus-me a tarefa de organizar o “canto dos jogos”, deparando-me com a estranha ausência das cartas 8, 9 e 10 de todos os baralhos. Sem o saber, acabava de ter o meu primeiro contacto com esse fenómeno conhecido por cá como a “sueca”.

No nosso pequeno mundo do IN-Mouraria damos especial atenção ao entretenimento. Por vezes isso poderá ser apenas ler o Correio da Manhã, outras vezes significa ver filmes de terror, mas na verdade a nossa mais amada forma de entretenimento são os jogos que jogamos sobre a mesa de tampo de vidro.

Durante algum tempo, no início, era o xadrez o jogo da moda – tempos que para sempre associarei à imagem do nosso cliente romeno, sempre com o seu icónico chapéu de cowboy, em intenso duelo contra o Ricardo. Os jogos de xadrez sempre foram uma espécie de “momento entre cavalheiros”, revestido de uma camada de silêncio respeitoso, que mesmo os que não jogavam tinham em consideração.

Até que, do nada, começa a revolução da sueca. A calma atmosfera do xadrez é substituída por uma torrente de emoções criada por quatro indivíduos debruçados sobre um tampo de vidro. Escusado será dizer que este jogo é-me completamente desconhecido. Ainda perguntei a outro romeno que aqui estava se conhecia as regras e se acaso sabia o nome do jogo no nosso país, visto não me vir à memória nenhuma “Senhora da Suécia” a ser jogada no meu bairro. Infelizmente, ele sabia tanto quanto eu. Pelos vistos, os únicos povos que têm algo de semelhante são os alemães com o seu Einwerfen, e os italianos com a Briscola – que poderá ser uma trisavó da sueca. Independentemente da sua origem, decerto nunca em sítio algum gozou de uma popularidade tão intensa como a que teve nas tascas lusófonas e, ao que parece, é improvável que as novas gerações a deixem desaparecer.

Nunca lhe apanhei o jeito e, por esta altura, é seguro dizer que nunca o apanharei. Já várias pessoas tentaram ensinar-me – como se eu fosse uma criança de 5 anos, 10 anos, ou mesmo da minha idade real – sem sucesso. Jogar, tentei apenas uma única vez – sim, eu, uma perfeita novata, jogando na Primeira Liga, apenas pelo gozo de bater violentamente as cartas na mesa, como se estas fossem explodir em mil doces, berrando “Joga, parceiro!”. E que adrenalina! As vitórias dão origem a uma euforia contagiante, as derrotas causam pequenos rancores que são tão intensos quanto de curta duração. Em qualquer um dos casos, é inegável que a “sueca” nos aquece o sangue. Na verdade, aquece de tal modo que levou à sua proibição com a Grande Lei S(u)eca de 2016, em que a Suecalândia e os seus membros fundadores foram forçados a cessar a atividade devido a… excesso de emoções, digamos.

A mesinha de tampo de vidro, que já é conhecida como o “santuário dos jogos”, não ficou abandonada por muito tempo. Após respeitado o devido período de luto pela “Senhora da Suécia”, o dominó começou a surgir e, aos poucos, tomou o lugar principal antes ocupado pela sueca, com igual nível de atividade e envolvimento. Isto permitiu que as equipas de jogo pudessem variar um pouco nas suas origens, tornando-se mais internacionais – o dominó foi uma prática mais nomádica nas suas voltas pelo mundo, ao contrário da sueca, que, apaixonando-se pela língua portuguesa, se recusou a sair daqui.

É difícil prever que futuro espera ao IN-Mouraria no campo dos jogos, mas estou certa de que, venha o que vier, a sueca continuará a ser a campeã invicta no que diz respeito à capacidade de esbater todas as diferenças entre as pessoas – assim que as cartas são batidas na mesa – funcionando como a “supercola” social cá do sítio. Tudo o que o preconceito constrói, a sueca manda abaixo. De repente, já não interessa quem é preto, puta ou caroxo – só interessa quem é que tem o “trunfo”, quem é que “corta” e quem é que “abre”.

Portanto, seja sueca ou qualquer outro jogo de equipa… JOGA, PARCEIRO!

Clara Abdullah

 

A sempre enigmática pontuação da sueca 
The ever enigmatic scoreboard of a sueca game

A ascensão do dominó
Rise of the dominos

 

Games People Play or:
How I Learned to Stop Wondering and Love the Sueca

In the beginning of my time here IN-Mouraria, I took on the task of tidying-up the “games corner” only to discover that all the card packs were eerily missing their 8s, 9s and 10s. Unbeknownst to me, that was the first time I made contact with the phenomenon known as “sueca”.

Entertainment holds a privileged place in our little world of IN-Mouraria. Sometimes this means reading Correio da Manhã, sometimes it’s scary movies, but really, the most beloved form of entertainment here is the games we play over our glass table.

For a while in the beginning, chess enjoyed a wave of popularity, a time that I will forever associate with the image of our Romanian client in his iconic cowboy hat playing chess against Ricardo. Chess games were always kind of a “gentlemen’s moment”, wrapped in a layer of silent respect that even the non-players perceived and treated as such.  
Then, seemingly out of nowhere, the sueca revolution started. The calm atmosphere of chess was replaced by the torrent of emotion that 4 people playing cards are capable of creating over a glass table. Needless to say, this game is completely foreign to me. I asked the only other Romanian here if he knew how to play and what this was called in our country, as I had never heard of any “Swedish lady” being played anywhere back home. He was as clueless as I was. Apparently the only other peoples who have something similar are the Germans with their Einwerfen and Italians with Briscola, which might actually be the great-grandmother of sueca. Regardless of where it came from, it certainly never peaked as intensely as it did in the lusophone tascas and by the looks of it, it’s improbable the new generations will let it go obsolete.

I never got the hang of it and it’s safe to say that I never will. Various people have tried to explain it to me like I was 5 years old, 10 years old or my actual age. I only tried it once - me, a complete rookie playing in the big league, just for the thrill of smacking the cards on the table as if they would explode into candy while declaiming “Joga, parceiro!”. And what a thrill it was! The victories often cause a contagious euphoria, the losses cause small feuds that are as intense as they are short-lived. In either situation, it’s undeniable that sueca gets the blood boiling. And the blood boiled so much that it led to the Great Sueca Ban of 2016, when Suecaland and its founding fathers (and mothers) had to cease their activities due to shall we say, over-excitement.

The tiny glass table that has by now become a sanctuary of games didn’t stay empty for too long. After we appropriately mourned the Swedish lady, the dominos started to appear and little by little replaced the supremacy of sueca with an equally absorbing activity. This turned the teams a bit more international too, as domino has been a bit more nomadic in its voyage around the world, whereas the sueca fell in love with the Portuguese speakers and refused to go any further.

It’s hard to say what the future holds for IN-Mouraria on the games front. No matter what may come, to me the sueca will surely remain undefeated in its capacity to smooth out all differences between people as soon as those cards hit the table, acting like a social glue of the whole place. Anything that prejudice has built, sueca takes down. All of a sudden it doesn’t matter anymore who’s black, a hooker or a junkie, just who has the trunfo, who cuts and who starts. For that reason, be it Sueca or any other team game: Joga, parceiro!

Clara Abdullah