Preparei-me para viver três meses. Passaram 29 anos

06 Fevereiro 2017

"À segunda foi mais difícil do que à primeira. Aliás, à segunda é que foi difícil, à primeira não. Vivi muito bem durante os primeiros 10 anos, organizei-me para fazer aquelas coisas que gostava de um dia concretizar mas que deixava para as calendas, para quando fosse possível. Longas viagens para as Maldivas, para Ceilão, para a Índia e para o Nepal. Fui logo no fim do primeiro ano e depois repeti no segundo e ainda no terceiro. Se tinha mais um ano, então lá ia outra vez [de viagem] para ver o que não tinha visto. Mas, quando cheguei ao fim desses primeiros 10 anos e me disseram que tinha mais 10, aí sim, não soube o que fazer. Já não tinha nada para fazer nesses 10 anos!

Tinha tomado decisões difíceis de reverter: deixei alguns empregos de que gostava, mas que eram exigentes e cansativos, e também fui desistindo de ter uma vida afectiva. Uma coisa é não termos vida relacional quando sabemos que estamos aqui a prazo, mas 10 anos já dá para isso. Afastei-me dos sítios e das pessoas e já não tinha pachorra para retomar, voltar a fazer o percurso de procura de uma relação… mas ao mesmo tempo fazia-me falta e esse problema era difícil de resolver. Abusei um bocado da bebida nessa altura, sozinho em casa, o que não é muito aconselhável. Com facilidade bebia meia garrafa de whisky ao fim do dia, entre as 19h e as 22h. Tive mesmo de ser acompanhado por um psiquiatra e esse processo ainda demorou uns três anos.

Soube a 14 de Dezembro de 1987 que era seropositivo. Foi o meu médico, que também era meu primo direito, que me deu a notícia e lembro-me bem, acho que ele estava mais atrapalhado do que eu. Tinha 40 anos, estava prestes a assumir uma relação nova e resolvi fazer o teste. Sabia que tinha corrido alguns riscos no passado, aquele comportamento sexual que toda a gente tem, ou tinha, na altura, que é o sexo sem preservativo.


Tinha a vida de uma pessoa divorciada, livre e independente, e sem grandes precauções. Umas vezes usava-se preservativo, noutras não, dependia do calor do momento. Mas a ocasião foi uma e basta essa, não é preciso mais nada. Sei que há duas ou três situações que aconteceram, talvez um ano antes, mas não sei quem foi. Quer dizer, sei: fui eu que me infectei. Ninguém me obrigou a ter um comportamento que me pôs em risco, eu é que quis, e tive-o com maior ou menor consciência.

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