Redução de danos: pragmatismo e radicalismo

03 Outubro 2016

Entrevista com Ricardo Fuertes sobre a sua experiência de trabalho na área da redução de danos em Barcelona e Lisboa.

Drugreporter: Quando e por que motivo decidiu trabalhar na área da redução de danos?

Ricardo Fuertes: Há cerca de dez anos, tinha mudado recentemente de Lisboa para Barcelona. Tinha um emprego do qual não gostava e estava à procura de outro. Encontrei uma oferta de emprego numa sala de consumo assistido com o SAPS Creu Roja. Nunca tinha ouvido falar de redução de danos e não sabia muito sobre drogas, mas tinha alguma experiência em saúde mental. Durante a minha formação académica – em psicologia – foram vários os professores que referiram que as pessoas que usam drogas são os pacientes mais difíceis e desafiantes, mas estava cético com esta ideia e disponível para tentar trabalhar nesta área.

DR: Que serviços é que a sua organização (SAPS Creu Roja) disponibilizava às pessoas que usam drogas? Que tipo de pessoas utilizavam os serviços?

RF: No SAPS existia a noção de que a prevenção de danos e a promoção da saúde devem fazer parte de uma abordagem abrangente. Por isso, eram vários os serviços que disponibilizávamos. Alguns focavam-se no uso de drogas (sala de consumo, troca de seringas, prevenção de overdoses, encaminhamento para tratamentos de substituição opiácea), outros na saúde (rastreios, curativos, encaminhamentos). Oferecíamos apoio social e legal, uma área de drop-in, chuveiros, lavandaria, workshops, atividades recreativas, etc. O projeto trabalhava com pessoas com grandes necessidades sociais. Também existiam pessoas que só apareciam porque não queriam correr o risco de consumir drogas por via injetada sozinhos, nas suas casas ou quartos. Muitos utentes eram espanhóis, claro, mas também existiam muitos jovens italianos, muitos georgianos e pessoas do Magrebe. Também pudemos observar que, em qualquer parte do mundo, as crises políticas e económicas e os regimes repressivos, conduziam as populações vulneráveis desses países a serviços de baixo limiar, como o nosso, em Barcelona. Creio que ocorrem situações semelhantes noutras cidades europeias.

DR: Quais as vantagens de uma sala de consumo?

RF: A sala de consumo daquele serviço era muito pequena e básica – só tinha espaço para dois utentes (duas pessoas ou dois consumos) de cada vez. Um dos meus colegas costumava dizer que uma sala de consumo é apenas um local onde as pessoas consomem drogas com alguém a ver. Gosto muito desta ideia. Um serviço muito sofisticado pode servir como uma barreira à expansão dos mesmos em zonas onde não existem recursos financeiros ou locais de grandes dimensões. Uma sala de consumo é basicamente um local tranquilo para injetar ou fumar de modo mais seguro, com a presença de profissionais disponíveis a ajudar (ou a chamar apoio) caso seja necessário. E, claro, ter alguém presente que possa disponibilizar conselhos úteis durante o consumo de drogas é algo que fornece maior credibilidade aos profissionais de redução de danos. Digamos que as pessoas começam a perceber que as mensagens relacionadas com drogas são realmente úteis e não simples conversa.

DR: Qual a reação das pessoas que vivem perto das salas de consumo?

RF: Existia em Barcelona uma forte oposição a algumas salas de consumo, sobretudo àquelas que foram implementadas numa zona mais afluente da cidade (Vall d’Hebron). A nossa sala de consumo era muito discreta, a entrada era feita através de uma porta lateral de um pequeno hospital e a maioria das pessoas não sabia que existíamos. Creio que existia alguma tolerância da parte dos vizinhos devido ao forte impacto que o consumo de heroína teve nas cidades do sul da Europa. Todas as pessoas têm casos próximos ou exemplos de uso de drogas entre os seus familiares ou amigos. Vemos isso claramente também em Lisboa.

DR: Qual era a vossa relação com a polícia?

RF: Havia um acordo com a polícia. Não vinham procurar pessoas no nosso centro. Percebiam que isso iria comprometer o nosso trabalho. Por vezes chamávamos a polícia caso existisse violência ou ameaças, mas essa era sobretudo uma medida de dissuasão. Chamar a polícia era uma tentativa de pôr fim ao conflito e de convencer os utentes a sair. Nunca chamámos a polícia sem avisar a pessoa e dar-lhe tempo de sair antes da chegada dos agentes.

DR: A nível pessoal, o que aprendeu ao trabalhar com pessoas que usam drogas?

RF: Em primeiro lugar, compreendi que as pessoas que usam drogas não são um grupo homogéneo, que as pessoas não são todas iguais e que não existe um comportamento ou personalidade típicos das pessoas que usam drogas. Também aprendi muito sobre realidades menos conhecidas: uso de drogas, tráfico, trabalho sexual, prisões, ocupação de casas, entre outros. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, essas realidades não são a preto e branco. A dicotomia bons e maus não existe nestas situações. A realidade torna-se imediatamente complexa quando há pessoas envolvidas – talvez ainda mais nestes casos, pois as leis que regulam as drogas e trabalho sexual não fazem sentido e não estão ajustadas à vida real. E escutei e presenciei situações de estigma e discriminação dirigidos às pessoas que usam drogas, sobretudo nos serviços de saúde e sociais, e situações de pobreza e violência extremas. Muitos dos nossos utentes vivem constantemente expostos a situações de trauma. Muitas das pessoas que usam drogas são sobreviventes, com um sentido de humor e generosidade incríveis, apesar das suas circunstâncias.

DR: Qual é a sua opinião pessoa sobre a dependência de drogas? É uma doença ou outra coisa?

RF: Pudemos observar em Portugal que a visão sobre a dependência de drogas passou de uma questão legal (crime) para uma condição de saúde. Isso foi útil para a implementação de serviços e redução do estigma, mas também tem algumas desvantagens. Catalogar o uso de drogas como uma mera condição crónica e individual é um conceito desempoderador e simplista. Ignora fatores estruturais como a pobreza, estigma e o impacto da proibição. Por exemplo, vemos pessoas a mudar as drogas que usam ou a forma como as consomem (injetando, por exemplo) devido à sua disponibilidade e preço. E temos visto muitos utentes a usar drogas para conseguirem lidar com condições de vida muito difíceis. No nosso trabalho, tendemos a concentrar-nos menos no uso de drogas e mais na resposta às necessidades das pessoas. O uso de drogas é, em muitas ocasiões, o menor dos seus problemas. Sou muito cético em relação a modelos que se focam demasiado em problemas mentais e em precondições genéticas.

DR: Onde trabalha atualmente e em que medida é diferente de trabalhar em Barcelona?

RF: Desde 2010 que estou a trabalhar em Lisboa, para o GAT – uma organização criada por pessoas que vivem com VIH, que faz trabalho de advocacia e disponibiliza serviços. Implementámos em 2012 o IN-Mouraria, um centro de redução de danos. Tornou-se um lugar muito popular entre as pessoas que usam drogas. Também criou a oportunidade para falar e partilhar informação sobre saúde, drogas, sociedade e a vida, sem julgamentos. Estamos a contrariar a ideia de que os utilizadores ativos de drogas não se podem envolver no ativismo e no planeamento de políticas. Existem basicamente duas grandes diferenças entre o meu trabalho anterior e o atual. Em Lisboa, não conseguimos até ao momento implementar uma sala de consumo.  Esse tipo de instalações nunca existiu em Portugal. Por outro lado, temos mais contacto com a comunidade do que o acontecia em Barcelona. Disponibilizamos serviços como o rastreio ao VIH e IST para a população em geral e a maioria das nossas atividades e debates são abertos ao público em geral. Essa é parte da filosofia da minha organização, mas é também a nossa estratégia: ter uma relação normal e positiva com os vizinhos.

DR: Quais os principais desafios para a redução de danos na Europa?

RD: A redução de danos nasceu e cresceu na Europa em momentos de crise. A heroína era um problema, um problema de ordem pública e, claro, havia o VIH e SIDA. Algumas pessoas corajosas desafiaram o sistema e fizeram o que tinha de ser feito. O que despoletou a ação foi basicamente o senso comum e o humanismo. Atualmente, a prevalência do uso problemático de drogas na Europa Ocidental é menor. Diminuíram as novas infeções pelo VIH relacionadas com uso de drogas. O uso foi realmente descriminalizado. Existe a ideia de que as coisas estão muito melhores e que já se conquistou praticamente tudo. As equipas de redução de danos tornaram-se mais profissionalizadas e dependentes de financiamento público. E estamos a perder o sentido de urgência e a tornar-nos parte do sistema. Em muitos casos, tornámo-nos num braço do Estado que disponibiliza serviços a baixo custo. No entanto, ainda necessitamos de defender a criação de serviços, mesmo que se destinem a menos pessoas. Devemos criticar publicamente a falta de acesso a serviços e tratamentos para pessoas migrantes em situação irregular. Devemos contestar os elevados preços dos tratamentos para a hepatite C, devemos ter uma visão crítica sobre as detenções por pequenos delitos relacionados com tráfico de droga. A redução de danos deve ser pragmática e baseada em evidência, mas também deve continuar a ser inspirada por um radicalismo comunitário.

Entrevista de Peter Sarosi, original em inglês disponível aqui