Uma paragem pelo IN-Mouraria
30 Junho 2016Este é o primeiro de uma série de textos escritos por Hélène Mazin, estagiária de origem francesa a trabalhar no IN-Mouraria.
Versão em português abaixo.
Une halte à IN-Mouraria
Au cœur du quartier Mouraria, une petite rue pavée mène jusqu’au numéro 79 de la Calçada de Santo André. Sur ce chemin pentu, l’emblématique tramway de Lisbonne frôle et fait doucement trembler les murs de notre local que l’on nomme IN-Mouraria. Dans cet espace, la ville est tout autre. Les touristes restent à la porte. Ici, entrent des gens abimés par l’agitation de la ville, en quête d’un peu de répit.
Chaque jour, l’équipe de ce centre de réduction des risques ouvre ses portes pour accueillir et répondre aux besoins d’une population en marge. Elle distribue du matériel visant à réduire les risques d’infections au VIH et hépatites (seringues stériles, préservatifs, pipe à crack etc.) auprès des consommateurs et consommatrices de drogues et met à disposition un dépistage gratuit et anonyme pour tous et toutes. Le centre propose également des consultations sociales et médicales et offre un service de domiciliation.
Quotidiennement, environ 70 personnes font une halte à IN-Mouraria. Généralement, ce sont les mêmes visages que nous voyons chaque jour. A partir de la fin d’après-midi, les personnes prennent possession de ce petit espace et l’investissent de façon à créer un semblant de « chez-soi ». Si vous jetez un œil dans l’entrebâillement de la porte, vous y verrez des gens jouer aux cartes, regarder un film, passer un coup de fil à des parents, manger un morceau, essayer une nouvelle robe ou bien encore, se raser dans la salle de bain. Autant d’activités qui peuvent paraitre anodines, mais qui sont en réalité essentielles à chacun(e). Prendre soin de soi pendant quelques heures, afin de pouvoir affronter à nouveau les difficultés d’une vie en errance.
Ainsi, IN-Mouraria, n’est pas seulement un centre de prévention et de réduction des risques, c’est un lieu de refuge et de protection pour un public particulièrement éprouvé. Ici, peu de règles sont imposées, on accueil autrui tel qu’il est, tel qu’il se présente au seuil de notre porte, sans même lui demander de décliner son identité. Au sein de ce centre, on ne cherche pas à mettre un terme à la consommation de drogues. On accepte les pratiques de ces usagers car ce qui importe, c’est d’établir un lien, une relation.
En effet, dans cet espace, la qualité de l’accueil et des relations entre les usager(e)s et l’équipe sont essentielles. Sans doute, le travail avec les pairs (ou autrement dit communautaire) favorise l’établissement de relations de proximité avec les usager(e)s. L’intensité de ces relations transforme alors cet espace, IN-Mouraria, en un espace familier où des relations interpersonnelles peuvent se tisser. Cela ne ce passe pas sans difficultés, sans conflits et provocations… Mais un « centre à bas seuil d’exigence » se doit d’engager des relations avec patience, persévérance et bien souvent avec humour, afin d’essayer de maintenir le lien avec ceux qui semble parfois détachées de notre société.
Il semble que IN-Mouraria procure d’une certaine façon un espace d’attachement au monde et donne l’opportunité à des individus en perte d’identité de se définir à nouveau en tant que personne à part entière, capable de satisfaire ses besoins et de faire valoir ses droits. Ainsi, faire une halte à IN-Mouraria, est à la fois une expérience humaine et politique dans le sens où elle vise à affirmer la dignité de chacun(e).
Uma paragem pelo IN-Mouraria
No coração do bairro da Mouraria, uma estreita rua pavimentada conduz até ao número 79 da Calçada de Santo André. Nesse caminho inclinado, o emblemático eléctrico de Lisboa roça e faz tremer ligeiramente as paredes do nosso centro que se chama IN-Mouraria. Neste espaço, a cidade é completamente outra. Os turistas ficam à porta. Aqui entram pessoas combalidas pela agitação da cidade, em busca de uma breve pausa.
Diariamente, a equipa deste centro de redução de danos abre as suas portas para acolher e dar resposta às necessidades de uma população à margem. A equipa distribui às pessoas que usam drogas materiais para reduzir riscos de infeção pelo VIH e hepatites (seringas esterilizadas, preservativos, cachimbos de crack, etc.) e disponibiliza a qualquer pessoa um serviço de rastreio gratuito e anónimo. São também oferecidos atendimentos sociais e médicos e um serviço em que a pessoa pode usar a morada do centro para receber a sua correspondência.
Diariamente, cerca de 70 pessoas fazem uma paragem no IN-Mouraria. Geralmente são os mesmos rostos que vemos a cada dia. A partir do fim da tarde as pessoas apropriam-se deste pequeno espaço e investem-no de forma a criar uma espécie de ambiente caseiro. Se espreitar pela porta semi-aberta verá pessoas a jogar às cartas, a ver um filme, a fazer um telefonema aos pais, a experimentar um novo vestido ou, ainda, a fazer a barba na casa de banho. São atividades que parecem pouco importantes mas que, na verdade, são essenciais para cada um de nós. Cuidar de si próprio durante umas horas para poder lidar novamente com as dificuldades de uma vida errante.
Assim, o IN-Mouraria, não é apenas um centro para a prevenção e redução de riscos, é um lugar de refúgio e proteção para um público particularmente posto à prova. Aqui há poucas regras, as pessoas são recebidas tal como são, tal como se apresentam à nossa porta, sem sequer lhes ser pedida identificação. Neste centro, não se procura pôr fim ao consumo de drogas. As práticas de consumo são aceites porque o que importa é estabelecer um vínculo, uma relação.
Efetivamente, neste espaço, a qualidade do acolhimento e as relações entre os utentes e a equipa são essenciais. Sem dúvida, o trabalho dos pares (ou, dito de outra forma, o trabalho comunitário) promove relações estreitas com as pessoas que usam drogas. A intensidade dessas relações transforma este espaço, o IN-Mouraria, num ambiente familiar onde as relações se podem fortalecer. Isso não acontece sem dificuldades, sem conflitos e provocações ... Mas num "centro de baixo limiar" as relações têm de acontecer com paciência, perseverança e muitas vezes com humor, para tentar manter a ligação com quem, por vezes, parece estar excluído da sociedade.
De certa forma o IN-Mouraria proporciona um ponto de ligação ao mundo e oferece, a algumas pessoas um pouco à deriva, a oportunidade de se definirem novamente como uma pessoa completa, capaz de satisfazer as suas necessidades e fazer valer os seus direitos. Por isso, fazer uma paragem no IN-Mouraria, é ao mesmo tempo uma experiência humana mas também política, no sentido em que é uma procura de afirmação da dignidade de cada um(a).








