Eliminar o VIH até 2030? Portugal diz que sim. Os dados dizem que não.

01 December 2025

Portugal não atingirá as metas da ONUSIDA para 2030 enquanto mantiver um modelo de prevenção, rastreio e tratamento do VIH bloqueado por regras desadequadas e inércia institucional. É urgente executar uma verdadeira “via verde” centrada na ciência e nos direitos humanos.

A profilaxia pré-exposição (PrEP) continua com meses de espera e, em 2025, com inexistência de vagas. As organizações não governamentais (ONG) e os CSP, essenciais para alargar o acesso, não receberam financiamento em 2025. Os custos do SNS devem ser otimizados: as consultas hospitalares são 43% mais caras que as consultas que forem contratualizadas com as ONG, e o SNS paga mais do dobro pela comparticipação da PrEP do que paga quando a dispensa é gratuita na farmácia hospitalar.

Com quase 25 anos de trabalho comunitário e apoio da AHF e da Coalition Plus, o GAT é hoje uma referência nacional e propõe uma alternativa concreta para o país: uma verdadeira via verde para eliminar o VIH até 2030.

Primeiro, é necessário desbloquear o acesso à PrEP com o alargamento e a simplificação do acesso, garantindo financiamento público específico e estável às ULS e ONG.

Segundo, o rastreio é também absolutamente insuficiente: os dados de 2024 revelam que apenas 68000 testes rápidos foram realizados em Portugal, 62% destes pelo GAT – que beneficia de um modelo de financiamento de testes económico.

No tratamento e na vida com VIH, o desafio continua. A generalidade das pessoas tem tratamento adequado, mas é necessário garantir que 95% das pessoas com VIH em tratamento não transmitem o vírus, reforçando a acessibilidade, atualização e eficácia dos tratamentos e cumprindo os objetivos da ONUSIDA. Para quem vive com VIH, o envelhecimento é associado a maior risco de comorbilidades e, por isso, exige resposta integrada: atenção médica, social e comunitária.

A eliminação do estigma do VIH deve ser uma prioridade estratégica. Segundo o Stigma Index 2.0, quatro em cada dez pessoas que vivem com VIH já foram alvo de algum tipo de discriminação social. O estigma compromete toda a cadeia de prevenção e há que garantir que as pessoas que vivem com VIH possam aceder ao tratamento, viver com dignidade e envelhecer com qualidade.

Quanto às instituições e ao enquadramento nacional, celebramos, enfim, a nomeação da nova diretora para o PNISTVIH, Bárbara Flor de Lima. Esta mudança é positiva, mas tem de ser acompanhada por uma estratégia nacional robusta e atualizada, além de uma equipa reforçada no PNISTVIH. Portugal, pioneiro em várias áreas de saúde pública, tem de garantir uma via verde para o acesso à prevenção do VIH e das IST.

Urge que Portugal disponha de uma verdadeira Estratégia Nacional para o VIH, e outras IST, que seja atualizada, coerente e baseada em direitos humanos e evidência científica. Esta estratégia deve ser multissectorial, transdisciplinar e abranger temáticas conexas ao VIH, como consumo de substâncias e redução de riscos, migrações e género. A saúde, ação social e educação devem ser articuladas, com garantida coordenação entre instituições. Sem estratégia nacional, adequada e articulada, perder-se-á tempo e recursos, e, sobretudo, vidas.

Para tal, é imperativo que sejam estabelecidos acordos com as farmacêuticas que garantam a defesa da saúde pública, sem impor custos excessivos aos contribuintes. A provisão de medicamentos e intervenções de prevenção deve ter em conta a economia de escala, o impacto em saúde e a sustentabilidade financeira do SNS.

Se Portugal adotar esta “via verde”, poderá alcançar ou aproximar-se significativamente do objetivo da ONUSIDA de eliminar o VIH e a Sida como problema grave de saúde pública até 2030. A estratégia é exigente, requer compromisso e liderança política. Na sociedade civil, estamos disponíveis para ser parceiros neste desafio coletivo.

Este artigo de opinião foi originalmente publicado a 1 de dezembro 2025 no jornal Público, da autoria de Luís Mendão, Diretor-Geral do GAT.