GAT reconhecido por órgão consultivo da União Europeia como boa prática em contexto prisional
25 Maio 2026O trabalho do GAT IN Mouraria foi destacado no relatório “Good Practices in Prison Settings”, publicado pelo Civil Society Forum on Drugs, órgão consultivo oficial da Comissão Europeia para a política de drogas.
O GAT foi reconhecido pelo Civil Society Forum on Drugs in the EU (CSFD) como exemplo de boa prática na área da redução de riscos, continuidade de cuidados e reintegração de pessoas que usam drogas em contexto prisional.
O reconhecimento surge no relatório Good Practices in Prison Settings – Civil Society Survey, publicado em maio de 2026, que reúne 18 práticas de 14 países, identificando respostas eficazes, baseadas na evidência e com potencial de adaptação a diferentes contextos europeus. O CSFD é o órgão consultivo oficial da Comissão Europeia para a política de drogas, composto por 43 organizações especialistas de vários países europeus.
A prática portuguesa destacada no relatório é o trabalho desenvolvido pelo GAT IN Mouraria, em Lisboa, no acompanhamento de pessoas que usam drogas e vivem em situação de forte vulnerabilidade social, incluindo pessoas em situação de sem abrigo, exclusão social ou precariedad. Muitas destas pessoas encontram-se também em maior risco de contacto com o sistema prisional, nomeadamente por pequenos delitos ou por ausência de situação regularizada.
Continuidade de cuidados dentro e fora da prisão
O relatório destaca o modelo integrado do GAT IN Mouraria, que combina um centro fixo de redução de riscos com trabalho de proximidade, em articulação com parceiros municipais, equipas sociais, pares e profissionais de saúde.
A intervenção inclui respostas como programas de troca de seringas, rastreios, referenciação para cuidados de saúde e acompanhamento social. O elemento diferenciador identificado pelo CSFD é a continuidade do apoio quando as pessoas entram no sistema prisional, através de visitas presenciais, contacto telefónico, apoio económico direto para necessidades básicas e articulação com equipas sociais e de saúde das prisões.
Após a libertação, cada pessoa é acompanhada através de uma avaliação clínica e social integrada. As equipas de pares apoiam na resolução de barreiras administrativas, obtenção de documentos, acesso a prestações sociais e navegação no sistema de saúde, com o objetivo de reconstruir vínculos de confiança, promover autonomia e apoiar processos de reintegração.
Uma resposta centrada na saúde, dignidade e direitos humanos
Segundo o relatório, esta prática responde a uma das principais fragilidades dos cuidados em contexto prisional: a interrupção do acompanhamento social e de saúde na passagem entre a comunidade e a prisão, e novamente no momento da libertação.
O CSFD salienta que a partilha de informação clínica relevante, o contacto regular durante o período de detenção e o apoio intensivo na transição para a comunidade podem melhorar significativamente a continuidade do tratamento, reduzir riscos de overdose e transmissão de infeções, diminuir a reincidência e reforçar a adesão ao tratamento de dependências, VIH e hepatite C.
O relatório sublinha ainda que o envolvimento de pares, a coordenação próxima com equipas prisionais e o apoio personalizado no regresso à comunidade são elementos centrais para a sustentabilidade e os resultados positivos desta resposta.
Barreiras que continuam a exigir resposta política
Apesar do reconhecimento, o relatório identifica desafios estruturais que continuam a dificultar a continuidade de cuidados em Portugal e na Europa. Entre eles estão a menor disponibilidade de respostas de redução de riscos dentro das prisões, a interrupção de tratamentos para dependências e infeções crónicas, o estigma associado ao uso de drogas e a exclusão social.
No caso português, é ainda assinalado que muitas pessoas saem da prisão sem inscrição automática nos cuidados de saúde primários, sem documentos pessoais ou sem morada fixa, tornando a continuidade do tratamento particularmente difícil sem o apoio de serviços especializados.
Para o GAT, este reconhecimento reforça a importância de respostas comunitárias, integradas e centradas nas pessoas, capazes de garantir que a prisão não representa uma quebra no acesso à saúde, aos direitos e à dignidade.
O GAT continuará a defender políticas públicas baseadas na evidência, na redução de riscos e nos direitos humanos, garantindo que nenhuma pessoa fica para trás, seja dentro ou fora do sistema prisional.








